Bastidores

Deisy&Lucas+Julia
Chegando a casa de uma de nossas personagens, para fotografá-la, na localidade São Pedro 71, próximo do Rio das Antas, meu coração disparou ao ver a linda senhora de olhos azuis, aos seus 92 anos de idade, sentada numa cadeira a observar o dia ensolarado. Sophia: lindos olhos; lindo nome. O que eu não imaginava e viria a descobrir minutos depois é que eu acabava de conhecer minha tia-bisavó, irmã de meu bisavô (pai de minha avó materna), Albino, que faleceu bem antes de eu nascer, acho, com quem nem cheguei a conviver. Eles eram em 20 irmãos, cada um teve sua família, cada família foi para um local diferente do original (Monte Claro, Veranópolis) e as novas gerações não tiveram mais contato. Foi uma sensação muito diferente essa que vivenciei. Vou levar minha avó um dia desses para que possa visitar sua tia, Sophia.
Marciele Scarton

Na foto, Marciele e Sophia.

Vitalidade

 Esta é Delésia, a avó materna da autora Marciele em uma de suas peripécias. Foi a própria neta quem registrou esse flagra, que acabou relatando no livro. Em uma tarde de setembro de 2011, quando Marciele chegou para visitá-la, deparou-se com a avó em cima do telhado, há uns três metros do chão – que ela acessou com uma escada – para arrumar a antena da TV. E Delésia ainda disse: “Que bom que tu chegou, assim não vou precisar subir e descer para ir vendo se a imagem tá melhorando…”. No livro, além da história, estão fotos de Gane Coloda reconstituindo a cena original.

 

Objetos

As saídas para fotografar as entrevistadas foram surpreendentes. Objetos que ganharam destaque no livro, que elas sequer haviam mencionado durante as entrevistas, começaram a surgir, no momento em que eu as apresentava à Marciele, que acompanhou comigo as sessões de fotos feitas pela Gane Coloda. Uma dessas situações ocorreu na casa da personagem Arminda Rossi Somensi, 86 anos. Desde que a entrevistei pensei em fotografá-la expressando a fé. Chegando lá, explicamos como queríamos a fotografia e Arminda de imediato lembrou que tinha guardado um dos véus que antigamente se utilizava para ir à missa. Enquanto procurava o véu, encontrou o sapatinho que havia usado em seu primeiro aniversário. Com esses achados, dona Arminda acabou ilustrando duas capas de capítulo, o que fala da infância e o que aborda a religião.

Fernanda Tomasi

 

O buquê

As entrevistas haviam terminado e iniciaríamos as sessões de fotos. Contudo, Marciele repetia insistentemente que precisávamos entrevistar ainda uma senhora que não houvesse casado, porque isso era raro antigamente. O  preconceito com as solteiras havia sido muito mencionado na maioria das entrevistas que eu já havia entregado a ela. No primeiro dia de fotografias, fomos até a casa de minha avó paterna, em busca de baús para ilustrar uma apresentação do livro. Subimos ao sobrado da casa, onde havia vários desses objetos guardados. O que eu não esperava era encontrar um buquê de noiva dentro de uma caixa de papelão que estava em um dos baús. Passei minha infância e adolescência mexendo nesses baús e em todos os outros objetos que estão guardados no sobrado, e nunca o tinha visto. Ao vermos o buquê, Marciele e eu nos olhamos intrigadas. Desci as escadas e logo perguntei a quem pertencia. Para nossa surpresa, pertencia a minha tia-avó, Helena Elma Tomasi, 85 anos. Ela o pegou em um casamento em sua juventude e o mantém há mais de 60 anos. Inexplicavelmente, surgia, na reta final do trabalho, a história de solteira que tanto buscávamos, porque a tia Helena nunca se casou. Ela está na capa do capítulo que aborda as moças e sua juventude reprimida.

Fernanda Tomasi